Na ilha de Utila saquei uma carteira de “motorista”, internacional e vitalícia, que me autoriza mergulhar a até 18 metros de profundidade em águas abertas.
É que em Utila, segunda maior cadeia de corais do mundo, estão também as certificações de mergulho mais baratas do planeta. Um curso de cinco dias sai por 250 dólares, - incluindo hospedagem, equipamentos, seis mergulhos de 40 minutos cada e certificação da Associação de Instrutores Profissionais de Mergulho (Padi).
Foi muito simbólico poder fazê-lo após algumas decisões verdadeiramente estúpidas que expuseram, para mim, coisas a carpintar - e a lavar - no espírito. E como não deixava de ser também um momento íntimo de mergulho, tudo calhou de assumir este significado cuja dimensão levarei tempo ainda para depurar e entender.
O fato é que o encantamento marinho me estendeu a mão.
Estamos falando de uma nova forma de estar e experimentar a natureza, na qual um “hectare” de coral chega a ter uma biodiversidade até 20 vezes maior que a mesma área de floresta. Tive a sorte de ver tartarugas e um tubarão, além de peixes multicoloridos cujas formas inda são um espanto. E preciso dizer: foi o mais próximo que cheguei da sensação de voar enquanto sonho.
Abaixo, assim a esmo, algumas anotações que fiz durante o curso. Lendo-as depois, preciso admitir que é difícil pra mim não ver analogias com estes outros mergulhos que a gente, por vezes, pode fazer em si mesmo:
- Debaixo d’água, tudo parece maior do que na verdade é.
- Quanto maior a profundidade, maior a pressão e a densidade.
- Não se pode, por motivo nenhum, prender a respiração quando se está mergulhando. E pode ser fatal voltar de grandes profundidades para a superfície rápido demais, por conta das variações de pressão.
- Tudo fica mais escuro e desbotado quanto mais fundo se vai. Primeiro desaparece o vermelho, então o amarelo e o verde, até que reste apenas um profundo e negro azul.
- O segredo do bom mergulhador está na capacidade que tem de controlar a flutuação à medida que desce e sobe, e na capacidade de respirar lenta e prolongadamente para salvar oxigênio - e poder permanecer, assim, mais tempo mergulhando.
Um entre os 80 pontos de mergulho de Utila. Foto:Utila Diving Center
Encravada no mar hondurenho do Caribe, Utila é uma das três Islas de la Bahia -, e a mais barata de todas.
Abaixo, bem rapidinho, como passar um dia aqui por R$ 35, incluindo hospedagem e alimentação.
Hospedagem
O honestíssimo Hostel Loma Vista é a opção mais barata de hospedagem em toda ilha. Aqui você descola um quarto privado com banheiro coletivo por R$ 10 -, e o preço inclui ventilador, uso da cozinha e internet sem fio. A casa fica a apenas 5 minutos de caminhada da praia.
Área coletiva do Loma Vista
Entrada do Loma Vista
Alimentação
Não vou me alongar demais pela fartura de opções, todas concentradas nas duas únicas ruas que perfazem o pueblo de Utila, - e as quais você pode percorrer em não mais do que 30 minutos, de ponta a ponta.
Mas, se pintar pela ilha, sugiro uma parada no The King. Aqui uma super baleada de lagosta – espécie de crepe que também inclui salada e queijo – sai por apenas 40 lempiras -, ou o equivalente a R$ 4. Outra boa opção é a quesadilla de camarão, que vale como refeição e custa coisa de R$ 5. O negócio é familiar, e o dinheiro vai para uma turma muito gente boa com mão de comida caseira.
Para o café da manhã, os restaurantes da orla constumam cobrar R$ 8 por um café típico, que inclui café ou suco, dois ovos, quiejo-crema, tortillas e feijão.
Diversão
Uma long neck custa R$ 2,50, e boas pedidas para a noite são os bares La Cueva e o El Tranquilo, -, embora meu negócio mesmo tenha sido o dia e meus próprios botões. A diária de uma bicicleta sai por R$ 10, e não faltam caminitos para vencer e pensar.
Aqui também estão os cursos de mergulho mais baratos do mundo, e é sobre eles que vou falar no próximo post.
Conhecido como El niño de la Resistencia, Oscar David Montesinos, 11 anos, solta o verbo para dezenas de milhares de pessoas a poucas horas da chegada do ex-presidente Manuel Zelaya à Honduras, - após 700 dias de golpe e 485 de exílio.
Após 700 dias do golpe e 458 de exílio, o presidente deposto Manuel "Mel" Zelaya retorna à Honduras e discursa no aeroporto da capital. Eu sou este aí no retangulo branco (Foto: Jornal El Heraldo).
Imagine se passasse no Brasil.
O presidente eleito convoca um plebiscito com a seguinte consulta: “Você está de acordo que, nas eleições majoritárias, se instale uma quarta urna na qual o povo decida a convocatória de uma Assembléia Nacional Constituinte?”
No dia da consulta, - durante a madrugada -, um comando militar articulado pelo Supremo Tribunal Federal, parte do congresso e o exército invade o Palácio da Alvorada, prende o presidente e o exila do país -, ainda de pijama, - sob o argumento de estar violentando a Constituição e as leis.
O repúdio internacional é imediato, e resulta na exclusão do país da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Ainda assim, o presidente da Câmara dos Deputados -, e líder da oposição, - se avoca a presidência e convoca eleições com o apoio dos militares.
O ato é imediatamente tachado de ilegal e fraudulento pelo presidente exilado, que propõe boicote ao pleito.
A abstenção chega a 60%, e vence o candidato do governo.
Um ano depois, o militar que coordenou a invasão ao Planalto é nomeado Chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.
Todos os atos contra o governo são duramente reprimidos, e não se abre um inquérito sequer para apurar a responsabilidade sobre a morte de dezenas de pessoas, bem como demais casos de violação dos direitos humanos.
Os funcionários públicos contrários ao golpe também são suspensos – incluindo 303 professores -, e seu retorno condicionado à assinatura de termo no qual se comprometem a não participar de atos contra o governo.
Enquanto isso, o governo altera a Constituição, flexibiliza a legislação trabalhista e propõe uma nova modalidade de concessão territorial na forma de “cidades-modelo” -, a serem geridas diretamente pela iniciativa privada. E realiza um mega-evento chamado Brazil Open for Business, no qual convida grandes investidores de 47 países a assumir os principais projetos de infra-estrutura do país.
E então passa que, 700 dias depois, o governo de fato aceita um acordo de reconciliação com o presidente deposto que permite seu retorno ao país – e a volta do Brasil à OEA, incluindo seus direitos de acesso a financiamentos internacionais.
O acordo, mediado por países vizinhos, inclui:
-Recuperação dos direitos civis e políticos do presidente deposto.
-Reconhecimento, por ele, da legitimidade do atual governo -, cujo mandato segue até 2013.
-E promulgação, imediata, de regulamentação constitucional que discipline a realização de plebiscitos e referendos como instrumentos de consulta popular.
Acordo selado, o presidente retorna, após 458 dias de exílio, para um ato apoteótico que reúne centenas de milhares na capital.
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Este ato apoteótico, para Honduras, ocorreu no sábado.
E abaixo estão as fotos da festa que fizeram, tão logo desembarcou o ex-presidente de Honduras Manuel “Mel” Zelaya.
A dúvida é o que passa a partir de agora.
As principais forças que aglutinam a resistência ao golpe estão reunidas na Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP). Entre elas, os seis principais sindicatos de professores do país, a Organização Fraternal Negra de Honduras (Ofran), o Conselho Cívico de Organizações dos Povos Indígenas de Honduras (Copinh), o Partido Tendência Revolucionária e segmentos do Partido Liberal (PL).
Do avião para o palanque. Foto: Jornal El Heraldo.
A primeira dúvida é se a Frente irá ou não se assumir como partido político, cuja possibilidade está prevista no acordo entre Zelaya e o atual presidente, Porfírio “Pepe” Lobo -, firmado com a mediação de Venezuela e Nicarágua.
Há os que temem pela desfiguração da Resistência se transformada em Partido Político, e há os que vêem na ação a possibilidade de convocar uma Assembléia Nacional Constituinte já em 2014, agora que está acordada a regulamentação constitucional para a realização de plebiscitos e referendos no país.
Isso depende de como ficará a relação entre a FNRP e o Partido Liberal (PL), pelo qual Zelaya venceu as eleições em 2005.
Não desce pela goela de dirigentes da FNRP que o PL tenha aceitado disputar as eleições propostas pelos golpistas em 2009, mesmo com a proposta de boicote feita por Zelaya. E o PL, claro, não quer perder barato seu protagonismo político-partidário no campo da centro-esquerda hondureña. Pelo personalismo político reunido em torno da figura de Zelaya, tudo parece indicar que caberá a ele a condução desse processo.
O fato é que a união de ambos – PL e FNRP - parece vital se quiserem vencer o Partido Nacional no pleito de 2013.
E o fato também é que, pela constituição hondureña, não há reeleição.
Zelaya tem trabalhado pela consolidação política de sua esposa, Xiomara Castro, nomeada para o Conselho Político da FNRP tão logo desembarcou no aeroporto.
Por ora, ele observa o quadro político hondureño de seu sítio em Olancho, no interior do país.
Afinal, foram 486 dias de exílio num momento de muita história para Honduras -, e me parece que ele quer saber onde pisa antes de tomar qualquer decisão.
Fotos - O Retorno de "Mel"
Ps: Aproveito para agradecer aqui os queridos Silvia e Felipe, correspondentes do jornal Brasil de Fato em Honduras. Sem eles, esta cobertura não seria possível. Valeu!
Ontem, no aeroporto de Tegucigalpa, três horas antes da chegada do ex-presidente Manuel "Mel" Zelaya à capital hondureña, - após 700 dias de golpe e 485 de exílio.
Logo posto mais vídeos, fotos e textos deste dia histórico.