Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens

09/04/2011

Um santo que bebe e fuma



Imagine um santo que bebe e fuma.
Um antigo deus Maia apropriado pelo catolicismo não oficial, num destes sincretismos tortos da colonização.
Um “cara,” enfim, que aceita como oferenda dinheiro, cigarros e birita da boa.
Pois ele existe, é cultuado na Guatemala e atende por dois nomes: San Simon ou Maximon.
Tudo bem que eu chegasse à confraria de Santiago la Laguna e o culto se passasse nos fundos de uma serralheria trabalhando à toda.
Ou visse um cidadão, ajoelhado, ofertando dois litros de coca-cola após acender uma vela.
Imagino que o santo já estivesse satisfeito, porque não era meio-dia e consegui divisar atrás da cadeira dele uma cartela de tabaco Domingo Rojo, oito garrafas de rum e aguardente e 12 maços de cigarro das mais variadas marcas.
Cigarros, aliás, mantidos permanentemente acesos na boca do santo por zelosos  confrades, - e a quem é dado o direito de repartir os regalos em reconhecimento aos valiosos serviços prestados ao recato e bem-estar do altíssimo. 
Padroeiro dos borrachos?
Símbolo de resistência cultural?
Coisa para turistas e loucos?
Fé?
Ou tudo isso junto misturado?
Na dúvida, deposito 5 quetzales no altar.
E lamento não ter uma boa salineira, lá de Minas, que era pra cair logo nas graças de sua santidade.
Aliás, bebe, fuma e toma coca-cola
Saca a entrada do culto

10/02/2011

Uma noite com o neto do califa

 


A foto aí em cima é da mesquita de Touba, segundo maior centro de peregrinação do Islã depois da Meca.

Estivemos lá apenas duas semanas antes do lugar receber dois milhões de muçulmanos para celebrar o legado de Amadou Bamba (1854-1927), um dos maiores líderes religiosos da história africana.

E esta é a história de como jantamos Yassa e coca-cola com seu neto, representante direto na linha sucessória de seu califado.

Fundador do Mouridismo, - ordem sufí mais influente entre as quatro existentes no Islã senegalês -, Amadou Bamba liderou uma das mais exitosas resistências pacíficas já registradas contra o colonialismo francês, a ponto de ser considerado uma espécie de Gandhi africano.

Temendo que liderasse uma Jihad – tamanho era seu poder na conversão de reis e demais lideranças políticas senegalesas para o Islã–, os franceses chegaram a exilá-lo no Gabão e na Mauritânea.

Deste exílio contam-se diversos milagres, como a vez em que Bamba teria se atirado ao mar de uma caravela francesa – onde a reza era proibida - para fazer suas preces sobre o Atlântico, em tapete de oração que surgisse assim encantado do oceano.

E como não adiantasse dar murro em ponto de faca – e cada investida contra ele resultasse em mais seguidores -, os franceses concederiam, em 1925, o direito para que Bamba fundasse no Senegal sua própria cidade: Touba. E que ali fosse enterrado, em 1927, sem jamais ter proposto uma única investida violenta contra seus opressores – a quem tratou de responder com barricadas de espirito.

Espécie de Vaticano islâmico, a “cidade sagrada” de Touba constitui até hoje uma zona administrativa autônoma com status legal especial dentro do Senegal. Ali turistas, peregrinos e os mais de 500 mil fieis que habitam a cidade estão proibidos de beber e fumar, bem como dançar e fazer música na rua.


Os herdeiros na administração da fé e da cidade foram os cinco filhos de Bamba, que se sucederam hereditariamente como os califas de Touba. E agora que todos já faleceram, abriu-se o califado para os netos.

Entre eles está Serigne Mam Mor Mbacke Falilou, que nos recebeu para um jantar com Yassa, Fanta, Sprite e Coca-Cola no departamento de agronomia que lidera no Senegal. E como representante direto da linha sucessória de Bamba, Serigne já dá mostras do papel que a história lhe reserva: no ano passado, coube a ele reunir-se com o papa Bento XVI em nome da defesa do diálogo inter-religioso no mundo.

Ele nos fala de sua paixão por plantar, do desejo de vir ao Brasil conhecer novas técnicas que possa aplicar em sua fazenda e nos demais rincões agrícolas senegaleses. Bem-humorado, brinca também com a vontade de desvendar o que afinal é isto que se fala do carnaval brasileiro.

E pede desculpas pelo jantar simples, sobre um tapete gasto no pátio, que nos ofereceu.

Não sei se percebeu que foi exatamente a falta de um banquete – e de toda esta ostentação que geralmente determina as elites religiosas – o que mais me impressionou. 


Jesus negro, padre branco


Foram quase duas horas de Dakar até o Monastério Beneditino de Keur Moussa, celebrado por suas apresentações de canto gregoriano à base de instrumentos tradicionais senegaleses como a Cora: espécie de harpa-alaúde de 21-cordas.
Modernidade apenas atiçada por um largo mural onde Jesus e Cia eram todos representados como negros, coisa que nunca vi em nosso Brasil o mais católico do mundo.
Mas enfim, tudo bem, vocês sabem como é: não consegui deixar de me perguntar por que raios, então, o padre era branco, e não negro.