10/02/2011

Senegal profundo



Aqueles dias que passamos em Tallenne Gaye, após o Fesman, foram provavelmente os mais marcantes de toda a viagem.

Terra natal de Ibrahima – com menos de mil habitantes -, Tallenne Gaye é uma autêntica comunidade rural Uollof, a maior entre as sete etnias que fazem o caldo senegalês.

Você provavelmente nunca ouviu falar dos Uollof, mas saiba que formaram, por quase sete séculos, um dos mais longevos impérios africanos.

Ficamos hospedados na casa de monsieur Dam, um dos líderes da comunidade.

E Ibrahima também esteve lá reconstituindo sua árvore genealógica, reunindo os patriarcas para conversas até o fundo de suas raízes.

O que posso dizer do que vi?

Os homens ceifando o feno para os carneiros, as mulheres descascando amendoins, as crianças alucinadas divertindo-se com a chegada repentina de um brasileiro branquelo.

As meninas indo buscar a lenha para o almoço, o Cebbn Diein – prato típico a base de arroz, peixe e legumes - servido numa grande bacia no chão, e comido com as mãos e coletivamente.

O café touba temperado com pimentas e alecrim, os sucos de Baobá e as rodas de Altaya: tradicional chá senegalês com pitadas de menta.


Os maridos e suas quatro esposas, a reverência permanente aos mais velhos, a preocupação antecipada com a safra do amendoim e do milho – ali onde só chove três meses por ano, entre junho e agosto.

O céu estatelado de estrelas, os banhos de balde e o respeito às cinco rezas do dia, chamadas pelo megafone da mesquita que pontua o pátio.

E o dia que anoitece mais cedo pela falta de eletricidade - salvo aquela única casa, com bateria solar, que nos hospedou.

Ao sairmos de lá, Monsieu Dam nos chamou num canto, avisou que éramos novos membros da família.

O que mais posso dizer?

Levará algum tempo – talvez a vida toda – para digerir todo este caldo interminável de cultura.
 
E outro tanto, certamente, para fazer valer a honra de estar abençoado entre os Gaye.
 

Nenhum comentário: